Os Enxames – O investimento inglório!

Cá estamos novamente, aproxima-se a Primavera e vem mais depressa do que se pensa. Surgem as primeiras dúvidas, algumas expectativas, quais os investimentos para uma melhor apicultura; erradamente compara-se os investimentos com uma maior produção de mel. Estes investimentos centram-se, para muitos apicultores, na aquisição de novas colónias de abelhas, e como nas últimas semanas tenho recebido algumas mensagens de leitores sobre este assunto, não podia fugir ao mesmo.

A principal razão para essa constante procura primaveril advém das perdas de colónias durante o Outono/Inverno, por vezes pelo desejo do apicultor de repor/aumentar o seu efetivo ou infelizmente, nos últimos anos, pela necessidade extrema de coincidir o número de colmeias no terreno com o número escrito nos projetos agrícolas. Digo infelizmente, apesar dessa procura ajudar em muito os fornecedores de “enxames/abelhas”, porque tem prejudicado bastante a qualidade dos “enxames” no mercado apícola. A procura tem superado em muito a oferta – Caros apicultores, cuidado com a qualidade das abelhas a adquirir. Como a necessidade do cumprimento dos projetos agrícolas é imperiosa, com a falta de “enxames” no mercado, tem surgido um aumento de roubo de colmeias que prejudicou ainda mais a qualidade dos mesmos.

Não querendo fugir ao tema, pois muito se poderia escrever e discutir relacionado com o parágrafo anterior, vamos então estudar o que, na minha opinião, poderá ajudar o pequeno apicultor (e também o maiorzito) a reduzir o investimento anual.

Avançarei com uma análise sobre as causas de perdas de colónias no Outono/Inverno, que na sua ausência poderia evitar algumas aquisições de novos enxames na Primavera. Não poderei ser muito extensivo devido a restrições de espaço do jornal +Aguiar, mas para cada causa poder-se-á sugerir uma nova intervenção ou mais espaço – Os leitores é que decidem. Lembro que apresento aqui a minha opinião pessoal, baseado principalmente na minha experiência, e nada pode ser afiançado como Lei.

A primeira causa a discutir é de longe uma falsa causa, pois é mais um sintoma e geralmente costumamos afirmar em bom-tom: “Perdi 3 colmeias que ficaram zanganeiras”, como se o facto de estarem zanganeiras fosse uma doença contagiosa. Se a colmeia está zanganeira (ou órfão), o termo ou a designação pouco interessa, o essencial é que saibamos que estamos perante uma colmeia sem rainha. E então a causa foi a perda da rainha; surge o PORQUÊ? Entre outras, a rainha anterior era velha e não foi substituída, muitas vezes por culpa do apicultor, porque ele é que deve antecipar essa necessidade, controlando a idade das suas colmeias/rainhas. Outra razão, pode muito bem ser a enxameação do ano anterior, e a rainha “jovem” que ficou, estava mal fecundada e a postura acabou antes do tempo, cedo demais para que as abelhas tenham flora/néctar para criar uma rainha na Primavera seguinte ou tarde demais, pois já não tinham as condições na Primavera atual. No entanto, o que me preocupa é o apicultor e aqui vai. Começa o problema para muitos: “Vou comprar uma rainha e meter naquela colmeia?”; “Vou meter um quadro com criação para fazer uma rainha?”; esquecendo que já não existem abelhas jovens (Essencial para a manutenção ou criação de uma rainha nova). Por isso eu aconselho que juntem essas colónias a uma colmeia forte para aproveitar as abelhas restantes e para proteger a cera e algumas reservas que estão nos quadros. O método de junção de colmeias fica para outra intervenção.

Outra causa é o cálculo errado das reservas deixadas para o Inverno. Obriga à necessidade de alimentar colmeias, algo que repudio vivamente, e peço desculpa pela afirmação. A alimentação é um problema com que todos se debatem quando atingimos o final do Inverno. No fim do Verão as colmeias ficam tão cheias, que mal as conseguimos levantar. Mas tal como na nossa vida (comemos todos os dias), também as abelhas necessitam de o fazer. Não porque tenham muito trabalho em tempo sem flores, mas porque precisam de manter o aquecimento sempre constante da colmeia, acima dos 35ºC. Há apicultores que deixam as caixas (muitas) em cima dos ninhos o ano inteiro. Não façam isso. As abelhas têm necessidade de aquecer todo o espaço. Porquê aquecer 2 espaços quando necessitam de um só. Quando chega o final do Outono, verifique se há caixas nas colmeias que estejam lá a mais. Se as abelhas estiverem todas no ninho, retire esse material que origina o arrefecimento da colmeia. Irão consumir menos reservas, e talvez nem necessite de as alimentar neste período pré-primaveril. Alimentar (sim/não) fica para outros textos.

Uma causa que muitas vezes não é referida é o problema das ceras. Vou dar um conselho grátis: “Nunca comprar uma colmeia com as ceras já aplicadas”. Compre a colmeia e as ceras de lado (apenas as necessárias) para os quadros que vai utilizar. No local que destinou para a apicultura aplique as ceras à sua maneira. No futuro irá perceber o resultado, pois nem que seja pelo facto de ter esticado os arames. Outro conselho: “Nunca guardar cera de um ano para o outro”. Pode voltar a trocá-la (paga apenas a moldagem), e tem sempre cera nova no início de cada ano. As abelhas adoram a cera “nova”. Um último conselho sobre as ceras: “O barato sai caro, adquire cera de qualidade”; nunca ficará arrependido. Com esses três conselhos irá diminuir as perdas de colmeias no Outono/Inverno, porquê? Porque terá colmeias mais saudáveis e por conseguinte mais resistentes.

Numa intervenção minha anterior referi a importância da instalação de um apiário, pois a má escolha é a causa de muitas perdas. Em maus locais as abelhas tendam a largar o local enxameando levando toda a população, mas isto dava para grandes conversas. Uma boa forma de saber se o local é adequado é procurar saber se já houve colmeias (cortiços) por lá, ajuda muito. Considerando que o local seja propício à apicultura, nunca volte a entrada das colmeias para norte, preferencialmente para sul/sudeste – Em Portugal.

Uma das maiores causas que me aterroriza é a tendência dos novos apicultores agarrarem a apicultura porque um amigo lhe disse que aquilo não custava nada e as ilusões começam a ganhar forma. As abelhas necessitam de trabalho, supervisão, acompanhamento e trato e tudo isto requer tempo e dedicação, o que muitas vezes em falta originam as perdas

Tentarei finalizar esta intervenção com a causa com a qual iniciei, pois é a principal causa de perdas de colmeias. Chegado a esta altura do ano (pré-Primavera) começam a surgir os problemas. E que problemas é que surgem numa altura destas? Para quem há pouco chegou (ao mundo das abelhas) só pensa em facilidades. Imagina comprar uma colmeia com abelhas, e que com um pouco de sorte ainda consegue levar algum Mel para casa nesse mesmo ano; no ano seguinte consegue então uma boa colheita; reduz no terceiro ano que se segue, sem saber porquê; e finalmente a mesma colmeia que se havia portado tão bem, está agora nesta altura a dar as últimas, fraquinha, zanganeira, traça, e sabe-se lá mais o que? Estou a tomar como referência (exemplificar) uma colmeia povoada por exame de cortiço ou simples desdobramento, que no 1º ano (Ano ZERO) ainda dá 5/10 kg; a mesma colmeia no 2º ano (Ano UM) dá mais de 30kg (Maravilhoso…); no 3º ano (Ano DOIS) dá menos de 5kg (Mas porquê?); na entrada no 4º ano (Ano TRÊS), se lá chegar, por volta de Fevereiro/Março, a colmeia começa a apresentar sinais de fraqueza.

O Apicultor ao visitar as suas colmeias, depara-se com situações algo confusas, e como inexperiente que é, fica logo a pensar que alguém o “tramou”. Primeiro pensa no vizinho que utilizou pesticidas para tratar as árvores; depois pensa que alguém lhe pôs inseticida para lhe acabar com as abelhas; enfim uma série de maldições que lhe estão a fazer. NADA DISSO, reparem que eu falei numa rainha que iria entrar no seu 4º ano, pois numa colmeia móvel se o Apicultor nunca lhe faltar com o espaço, para ter mais mel, nunca enxameou (normalmente), e as abelhas raramente fazem a substituição da rainha. O leme de não mudar o que está bem reina. A rainha acaba por “esgotar” a postura. Com o final da época, as colmeias ficam bastante povoadas, e o apicultor não se apercebe de nada. Mas com o decorrer do tempo, a rainha irá reduzir a sua postura. As abelhas que irão nascer não irão compensar as que vão morrendo. A colmeia que fora tão boa, começa a perder força. Daí surgirem no início da época situações de colmeias enfraquecidas.

De qualquer forma assumi em não referir a varroa nestas causas, dado que este assunto merece um artigo só por si, e ela é sem dúvida: “A causa de perdas de colmeias…

Para finalizar tenho de deixar uma mensagem. Por vezes vale a pena “errar”. Colhemos conhecimento que de outra maneira não seria possível. É isso que me tem acontecido, e acreditem que no dia-a-dia irá acontecer com vocês. Mesmo depois de terem adquirido alguma prática, haverá sempre algo que não irá decorrer de acordo com aquilo que vos foi transmitido. Se correr tudo bem, é motivo para se sentir satisfeito. Se surgirem contrariedades (que vão acontecer, garanto), não desanime e continue, pois isto da apicultura (abelhas) não é uma ciência. Inventar? Nunca tente. Está tudo inventado. Podemos conseguir maneiras de trabalhar diferentes, inovar.

Algumas partes desta minha intervenção teve como base os saberes do meu amigo apicultor “Augusto Ferreira – o abelhas do Fratel”

Cristóvão Oliveira
— Professor e Apicultor

Artigo Publicado no Jornal +Aguiar da Beira – Fevereiro-Março/2014

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