O perigo

(Ler antes)

Miguel fez por esquecer a ideia de traição…

A primeira reunião foi realizada no primeiro dia do Inverno, a Escolhida em frente de várias abelhas bastante jovens, onde algumas nunca saíram da colmeia. A reunião foi iniciada por uma abelha pertencente à corte da rainha, cujo dorso apresenta uma cruz, apresentando a Escolhida às demais. As próximas horas da escolhida assumiram imediatamente um ritmo inverso. Os passeios foram trocados por longas conversas e apresentações às abelhas jovens. Mas o que teria de tanto a dizer a Escolhida às abelhas mais jovens? O seu tempo dedicado aos opérculos foi reduzido ao mínimo. Entre as horas, a Escolhida ainda saía por alguns minutos, mas o que trazia, fosse algum néctar bem escolhido ou pólen sempre diferente das irmãs coletoras, não era levado para os seus benditos opérculos, mas sim para as reuniões intermináveis.

Miguel interrogava-se sobre o que a Escolhida teria de tanto para dizer às abelhas jovens, durante longos minutos, por vezes mais de uma hora. Após algumas horas, já de noite, decidiu tentar ouvir mais de perto. Emburalhou-se num pouco de pólen, e graças à sua estatura mais diminuída, facilmente se confundiria com abelhas jovens para quem estivesse distraído. Instalou-se bem atrás na última fila, a tentar ouvir a palestra, pois todas ficavam extasiadas a olhar para a Escolhida. De início paraceu ouvir musicalidade, algo que trascendia qualquer ruído da natureza que Miguel conheica.

Estava prestes a perceber algumas palavras quando sentiu duas presenças atrás dele que o agarraram com força. Voltou-se e viu duas guardas escuras e cheias de vitalidade prontas a executar algo que lhe pareceu mais do que uma simples expulsão.

–Mas que raio está a fazer um zangão, mal disfarçado, aqui dentro? — perguntou a guarda que devia ser a de patente superior. –O teu lugar é lá fora, aliás o tempo de zangões já finalizou.
–Que têm vocês a ver comigo? Porque não me deixam em paz?
–Responde à minha pergunta, pequeno excremento! Porque estás dentro da nossa colmeia?
–Não têm nada a ver com isso! É também minha colmeia. — respondeu Miguel, tendo bem noção da mentira na sua última frase.
Na escuridão, Miguel não viu a pequena mordida a surgir da guarda com menos patente, e sentiu uma dor suficiente para pensar que a vida se extinguia.
–Não são meus superiores! Não têm direito!
–E tu não pertences à esta colmeia, mas enquanto cá estiveres, tenho o teu destino na minha posse.
Miguel tentou fugir, mas ambas as guardas o agarraram, e aliás a ferida sofrida não o deixaria seguir com muita velocidade.
–Larguem-me!
–De uma maneira ou de outra o teu destino está traçado.
A guarda de alta patente caminhou um pouco em direção a Miguel, depois ficou imóvel. Miguel torceu a cabeça para ver o que se passava. Foi então que viu a Escolhida, parada no meio do caminho; aparentemente não havia luz, mas ela brilhava, como se tivesse o poder dos pirilampos; e o seu olhar parecia que ultrapassava o nosso corpo, como se ela olhasse para além do nosso ser, excrutasse a nossa alma; o seu olhar dava a impressão que não estávamos ali, dava a impressão que estávamos dentro no seu próprio olhar.
O mais curioso, parecia que o silêncio se tinha instalado na colmeia, e que as próprias abelhas jovens também ja não estavam ali.
–O que deseja? — espevitou a guarda de alta patente.
–Ouvi barulho. Pensei que pudesse haver algum problema.
Miguel apercebeu-se de que era a primeira vez que tinha ouvido a Escolhida falar. As suas palavras eram realmente algo para além de qualquer ruído da natureza que ele conhecia.
–Nenhum problema. Só um zangão mal disfarçado que está num sítio onde não devia estar.
–Talvez o devesse tratar como um zangão, membro da nossa família, e não como um escarevelho.
–E talvez se devesse meter na sua vida! Aliás que não entendemos qual é, nem sabemos para que é.
No entanto ambas as abelhas guardas largaram Miguel e olharam fixamente para a Escolhida. Por um instante, receou que as guardas fossem tentar algo contra ela. Lembrou-se de tudo o que já tinha observado na escolhida, dando a impressão que duas guardas não lhe poderiam sequer fazer um arranhão. As guardas pareceram sentir o mesmo, pois largaram-no completamente e deixaram-no afastar-se até desaparecer entre as abelhas, confundindo-se como sempre o fizera. Miguel olhou de relance para trás e vislumbrou a Escolhida ainda parada no mesmo local. O seu brilho tinha autosuficiência, como um pirilampo; parecia uma sentinela silenciosa. Mas pouco depois olhou novamente, a Escolhida tinha desaparecido. Apenas a luz permanecia, clara e de um branco cortante.

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