Livre Trânsito

(Ler antes)

Pouco mais de uma semana decorrida, Miguel estava frustrado. Não descobrira os factos mais básicos sobre a Escolhida. Continuava a não ter nome – ouvira algum sussuro na colmeia, mas dado o sibilar típico da comunicação entre abelhas, não depreendera nenhum nome – e a natureza das suas reuniões com as abelhas mais jovens permanecia uma incógnita. Decidiu que estava na altura de uma operação de choque.

Na hora seguinte, já de noite, quando a Escolhida chegou de uma última saída “noturna”, sendo a única que voltava tão tarde, Miguel apressou-se para se posicionar bem na frente na plateia das reuniões; mesmo correndo o risco de ser apanhado novamente e desta vez com a possibilidade de ser fatal.

A primeira coisa em que reparou foi que a Escolhida, afinal não se instalava num púlpito, mas sim, num opérculo de zangão, ficando ligeiramente mais alta que a plateia.

Instalou-se rapidamente no local que lhe pareceu mais adequado, bem no meio das abelhinhas brancas, mas suficientemente na frente para conseguir ouvir, ou pelo menos tentar. Um calafrio percorreu-o, apesar do calor natural da colmeia, quando viu a Escolhida aparecer, deslocando-se calmamente até o “púlpito”. No centro era deixado um espaço amplo e vazio para que mais abelhas jovens pudessem ver a Escolhida sem ninguém à sua frente, como um semicírculo, e a Escolhida o centro. Reparou a ausência completa de qualquer abelha dita adulta. Como por magia a Escolhida desapareceu, e no meio da agitação das abelhas que o rodeavam, Miguel deixou de ver, por isso decidiu ir embora e tentar noutra altura.

Voltou-se para sair e deparou-se frente-a-frente com a Escolhida.
–O que é que estás a fazer aqui novamente?
–Peço d-d-esculpa — gaguejou Miguel — Pensei que iria discursar.
–Não, não pensaste. Sabias que eu iria discursar, porque me tens vigiado desde há muitos dias.
–Pensei que pudesse ser uma traidora.
–O que é que te pode ter dado essa ideia?
–As saídas quase noturnas — mentiu Miguel.
A Escolhida sibilou novamente, em jeito de gozo.
–E agora? Sabes a verdade?
–Nem por isso — confessou o pequeno zangão.
–Sou formador, ou professor. As conferências ou palestras são aulas, como numa escola, por exemplo.
–Ou uma escritura — respondeu Miguel.
–Exato. Algumas escrituras são muito valiosas pela informação que representam.
–O seus opérculos são escrituras?
–São, claro, mas agora que sabes aquilo que representam, temos um problema.
–Não vou contar a ninguém… — suplicou Miguel. — A sério.
A Escolhida passou uma pata sobre o pequeno zangão, que conseguia ser mais baixo que ela.
–Dava-me jeito um ajudante — disse suavemente. — Alguém para tomar conta dos meus opérculos enquanto estou fora. Gostavas de um trabalho assim?
–Sim, s-s-im. — respondeu entusiasmado o pequeno zangão, pensando que finalmente poderia ser útil para a colmeia, durante o inverno.
–Preciso de informar a corte?
–Não, não, eles não sabem que estou cá.
–Tens a certeza?
–Bem, eles vão sabendo, mas tenho-me safado.
–Como é que te chamas?
–Chamo-me Miguel, alteza, e o que devo fazer agora?
Mas a Escolhida limitou-se a olhar para ele, como se olhasse para lá dele, como se o escrutasse no seu íntimo.
–Não sou da nobreza. Eles não te irão chatear mais a partir de agora. Vive sem medo…

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