Os Apiários

Este artigo nasce de conversas recentes com apicultores da região, que saúdo com agrado, e com os quais espero continuar a dialogar, colaborar e quem sabe evoluir.

Ao longo dos anos, cada apicultor vai evoluindo, por vezes de modo industrial (muito baseado em subsídios/projetos e estimulação artificial das abelhas), e por outro lado alguns mantêm-se pequenos com meia dúzia de colmeias ou até dezenas, mas sempre pequenos. Estes últimos costumam tratar as abelhas com todo o respeito e até lhes criam boas pastagens, mas por vezes o maneio da colmeia não é o melhor.

Apesar das notícias da moda para os apicultores darem mais ênfase às abelhas (aquisição de enxames ou rainhas), à venda e procura de mel e outros produtos apícolas, tais como a Própolis e a Geleia Real que têm tido um aumento de procura, não tem sido dado a importância devida ao apiário, nomeadamente a existência de apiários vizinhos.

Costuma-se dizer que uma boa vizinhança faz uma boa casa, e nas abelhas não é diferente. Apiários vizinhos, ou os seus donos só têm a ganhar com a boa vizinhança. Por exemplo, por muito controlo de enxameação ou de rainhas que possa haver, existem sempre enxames que saem. Os novos enxames sempre que possível são recolhidos e colocados em novas colmeias. Mas se o enxame vai para o vizinho, continua a ser do dono, por isso o apicultor deve compreender caso o vizinho apareça a reclamar o enxame que pousou no seu apiário perto de alguma caixa vazia – Ver: Decreto-Lei nº 47 344 de 25-11-1966, LIVRO III, TÍTULO II, CAPÍTULO II, SECÇÃO II, Artigo 1322.º – (Enxames de abelhas), onde é referido no ponto 1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar. E no ponto 2. Se o dono da colmeia não perseguir o enxame logo que saiba terem as abelhas enxameado, ou se decorrerem dois dias sem que o enxame tenha sido capturado, pode ocupá-lo o proprietário do prédio onde ele se encontre, ou consentir que outrem o ocupe. Início de Vigência: 01-06-1967. Esta lei nunca foi revogada, nem alterada, que seja do meu conhecimento.

Apesar deste pequeno exemplo anterior, o grande problema, na minha opinião está no controlo da doença que mais contribui para qualquer deterioração da nossa atividade, o controlo da varroa. Monitorizar a infestação de varroa e por vezes outras doenças, que muitas vezes advém do mau controlo da varroa, é premente. Qualquer apicultor deve atuar antes de espalhar a varroa pelas colónias dos apiários vizinhos. Em casos extremos pode ser preferível matar um enxame completo do que comprometer o nosso apiário e os dos vizinhos.

Uma forma de evitar a perpetuação de má genética é a troca de colmeias entre vizinhos apicultores, principalmente se forem apiários que distam mais de 3km, claro.

Abrir colmeias o mínimo possível é um bom maneio, e deve-se observar com grande frequência o que se passa na entrada da colmeia de modo a manter sempre as infestações de varroa controladas. Ao diminuir a abertura das colmeias, diminuímos a agressividade das nossas colmeias e também a tendência de pilhagens entre apiários. O que promove uma boa vizinhança. Outro ponto importante é tentar sincronizar as crestas para os mesmos dias entre vizinhos apicultores, também de modo a diminuir os riscos de pilhagem entre apiários.

O apicultor é responsável pela pastagem das suas abelhas, deve observar, anotar, comparar e colmatar todas as falhas na pastagem afim de ter abelhas saudáveis e sempre boas colheitas; ou seja, a ideia de ter mais colmeias num apiário deve depender da flora, mas também da existência dos vizinhos. A presença de água natural perto deve ser muito valorizada.

Cada apiário deve ter um número baixo de colónias, talvez umas 20 seja o ideal, podendo ir até as 45 na nossa zona para que haja alimento suficiente durante o ano e não haja tanto o risco de pilhagens, principalmente com a existência de apiários vizinhos.

Algo que cada apicultor deve pensar, principalmente com a presença de apiários vizinhos é evitar colmeias abandonadas. Não façam isso! É bom ter enxames selvagens mas infelizmente é raro que eles tenham alguma tolerância natural à varroa pois vieram de enxames tratados de alguma forma pelos apicultores. Como já disse há que monitorizar sempre os enxames. Seja um bom apicultor para seu bem e dos apicultores vizinhos.

Bem, penso que já disse tudo.

Resta-me lembrar alguns artigos das leis relacionadas com a apicultura, em particular com os apiários, que o tema que apresento.

Seguindo o Decreto-Lei nº 203/2005 de 25 de novembro, nomeadamente o capítulo III, Localização dos apiários, no artigo 5º – Implantação dos apiários, temos 1- Os apiários devem estar implantados a mais de: a) 50 m da via pública; b) 100 m de qualquer edificação em utilização; e temos 2- Exceptuam-se do disposto no número anterior os caminhos rurais e agrícolas, bem como as edificações destinadas à atividade apícola do apicultor detentor do apiário. E no artigo 6º – Densidade de implantação, 1- A densidade de implantação de apiários e de apiários comuns deve estar em conformidade com os parâmetros estabelecidos no quadro constante do anexo I do presente decreto-lei, que dele faz parte integrante. 2- O número de colmeias por apiário e apiário comum tem como limite máximo nacional as 100 colónias. ANEXO I – Quadro de densidade de instalação de colmeias, de 11 a 30 colmeias – 400m; de 31 a 100 colmeias – 800m.

Estes artigos revogam os mesmos artigos 5º e 6º do Decreto-lei 37/200 de 14 de março, que apresentam outros valores.

Finalizo como iniciei, alguns apicultores evoluem profissionalmente, outros mantêm-se amadores, mas uma boa vizinhança faz uma boa casa, e nas abelhas não é diferente. Sejamos bons apicultores, sejamos amigos, sejamos bons vizinhos e façamos uma boa cama às nossas meninas, a natureza agradece.

Cristóvão Oliveira
— Professor e Apicultor
Artigo Publicado no Jornal +Aguiar da Beira – Fevereiro/2016

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