A Própolis

Desta vez decidi que o tema a abordar tinha que ser, na minha opinião, um produto de excelência da colmeia. Tenho de concluir que os apicultores ainda pensam nas colmeias como unicamente produtoras de Mel e de Enxames (mais abelhas), principalmente devido a conversas recentes com apicultores de Aguiar Beira. No entanto, cada vez mais, temos de virar as nossas colmeias para a produção de outros produtos, são eles, a Geleia Real, a própria Cera, o Veneno, e o produto de excelência que optei abordar hoje, a Própolis.

Tem havido um aumento, nos últimos anos, na promoção deste produto, principalmente sobre os seus efeitos benéficos à saúde humana, devido à sua composição. Refiro um pequeno resumo sobre os mesmos: Flavonoides com ação regeneradora dos tecidos, antioxidante e reguladora do sistema imunitário; Óleos Essenciais e Ácido Ferúlico, com ação antibiótica; e Vitaminas; entre outros. Desta forma atua como antibiótico natural por excelência, atua sobre infeções de origens variadas, combate bactérias e fungos. Ideal para tratar problemas respiratórios, tais como gripes, resfriados, amigdalites, sinusites, bronquites, e também otites. Em prevenção, pode exercer uma ação imuno-estimulante, aumentando a resistência do organismo às adversidades do dia-a-dia, pois estimula a produção inata de várias células do sistema imunitário, aumentando a capacidade do nosso corpo de luta contra microorganismos (luta externa) e tumores (luta interna). Como é antifúngica, pode ser utilizado na estomatite aftosa. Trata inflamações da mucosa gástrica, ao contrário dos efeitos negativos do próprio mel, que tem sido usado para esses casos. Pode também ser usado como anti-inflamatório, antioxidante, hepatoprotetor e regenerador de úlceras. Externamente, é muito eficaz nos casos de psoríase, eczemas, herpes e verrugas.

Pode ser utilizado em forma de tintura, extrato, xarope, inalador ou misturado com Mel.

No entanto já me perdi, pois a intenção deste artigo seria mais direcionado para o apicultor e a produção deste produto da colmeia por excelência. A Própolis é um produto com um fator de produção muito agradável, porque não afeta a produção de Mel, tal como a produção de Pólen.

Simplesmente existem duas formas de produção de Própolis por parte do apicultor: (1) “Própolis Raspado”, (2) “Própolis de Grelha ou Rede”. Claro que a Própolis “colhida” segundo o segundo processo é mais valorizado, na ordem de mais de 200%. Por exemplo, se pelo primeiro processo o valor poderá rondar entre 10-20€/kg (Preços no produtor), através do segundo processo o valor ultrapassa facilmente os 40€/kg. Nota: Os preços apresentados resultam de experiência própria. O facto da desvalorização do produto “raspado” face ao de “grelha ou rede” deve-se à presença de insetos (abelhas), madeira, cera, resíduos de pólen ou mel, e até tinta, que acaba por se misturar ao efetuar a raspagem da propolis das caixas e quadros. Sim, porque a Propolis raspada é obtida através de raspagem com faca, ou espátula de todas (ou quase todas) as superfícies das alças e quadros que vão para casa.

A “Própolis de grelha ou rede” é obtida através da colocação de uma grelha ou uma de plástico no cimo da colmeia, por baixo da prancheta. Como as abelhas detestam buracos na colmeia. Buracos na colmeia propiciam a criação de traça e bolores. As abelhas tendem a criar favos ou deixar espaço de passagem, chamado o espaço abelha (6-8mm), no entanto se os buracos são inferiores ao espaço abelha, elas produzem Própolis para colmatar as falhas. Aproveitando esse comportamento, as grelhas ou redes são construídas com um espaço abaixo do espaço abelha e assim elas preenchem toda a superfície de Própolis.

A produção desde produto de excelência pode ser um bom complemento financeiro ao apicultor, dado, como já disse, não afeta a produção de mel. Claro que existe um maneio extra e esse não pode ser excluído. O apicultor deve inserir as grelhas ou redes e deve retirá-las, quando cheias ou quando a produção não evolui mais e substituí-las por novas. Passo a explicar, há colmeias que enchem as grelhas ou redes todas, mas há colmeias que tendem a encher, por exemplo, 50% da grelha ou rede. Se as deixarmos elas não produzem mais, mas se as substituirmos, elas irão encher novamente os mesmos 50%, pois isso deve-se ao sistema de arejamento da colmeia ou à propensão dessa colmeia em produzir Própolis. O método de substituição regular de grelhas ou redes, baseado na minha experiência, aumenta a produção final pretendida.

Existe no entanto, ainda, um grande inconveniente, que é a remoção da Própolis da grelha ou rede. Resumidamente o método mais badalado é o congelamento das grelhas ou redes e batimento das mesmas após saírem do frio, mas esse método tende a danificar as grelhas de plástico. Em relação às redes, não tenho ainda experiência suficiente para dar opinião.

Estou certo que o aumento considerável de apicultores profissionais em Portugal nos últimos anos, na procura incessante de mais produtos da colmeia e de modo a rentabilizar o negócio, que soluções para resolver este problema e outros irão aparecer em breve. Estaremos cá para ver e experimentar.

Ainda em relação à produção deste produto de excelência, na minha experiência, cada colmeia pode produzir entre 150 e 300 gr/ano, mas tudo indica que este valor pode ser aumentado com algum maneio extra, além de substituir as grelhas/redes. Aguardam-se ideias e experiências válidas por parte da população recente de apicultores jovens e cheios de ideias.

Notas finais – A Primavera está a iniciar, o apicultor que é apicultor consegue sentir o começo independentemente do 21 de março. Não se esqueçam de fazer o tratamento contra a varroa, caso seja necessário, mas quase de certeza que o é. Apesar do início da Primavera e da presença de flores, alguns enxames mais fracos devem ser ajudados. Para bem da apicultura, para bem dos vizinhos apicultores, cuidem das vossas abelhas…

Cristóvão Oliveira
— Professor e Apicultor
Artigo Publicado no Jornal +Aguiar da Beira – Março/2016

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2 thoughts on “A Própolis

  1. Texto bastante esclarecedor mas ainda assim não posso deixar de alertar para o facto de não ser referido quais os canais de escoamento deste produto, pois de nada serve ter produção se não o conseguirmos vender , uma vez que é produtor gostava de saber que empresas compram este produto?

    Cumps.

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    1. Bem visto. Na minha resposta vou tentar explicar o que eu entendo… Imagino que o Ricardo seja produtor de Mel. Imagino que venda mel aos seus clientes, sejam consumidores finais, seja a granel. Imagino que tenha canais de escoamento para o seu Mel a granel… Eu pergunto, como iniciou os primeiros contactos? Como descobriu os seus canais de escoamento? Com a Própolis não é muito diferente. Aliás não é diferente… Eu tive esse trabalho e posso ajudar, claro.

      Primeiro tem de decidir se o interesse é vender Própolis a granel ou a consumidores finais (assim como faz com o Mel). Eu aconselho que comece por “sondar” os seus clientes do Mel, sejam os consumidores finais, seja o canal de escoamento do Mel a granel. Através da internet e de algumas publicações encontra contactos de interessados em produtos apícolas; faça os primeiros contactos e analise…

      No meu caso, eu produzo, há muitos anos, mas a totalidade da minha produção é direcionada para consumidores finais, pelo que não é um canal de escoamento válido para outrem. Para alguma produção a granel que eu estou a iniciar, em privado podemos conversar sobre contactos mais concretos, que não divulgo aqui por razões óbvias da Internet.

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